Estações sobrepostas
Apesar de existir uma data no calendário que marca o último dia de uma estação e o primeiro dia da estação subsequente, há um período onde um pouco de cada uma dessas estações se sobrepõe, e a gente consegue aproveitar uma caminhada primaveril enquanto na teoria ainda estamos no inverno.
A primeira característica é que, apesar do sol e do dia seco, há muita lama. Lama, lama, lama. Lama que parece que não vai secar nunca, que acumula em todos os cantinhos e fendas da sola da bota, lama que não deixa você caminhar confiante por muito tempo - quando você acha que o solo tá firme, ela te dá uma rasteira e lá vem uma patinada. (Que pode ou não resultar em um escorregão.)
Aí temos as flores pré primaveris. Snowdrops, Crocus, Hellebores, Daffodils. São pequenas, mas tão coloridas, e em meio ao marrom do solo e e os tons desgastados das árvores, galhos e folhas, parecem ainda mais vibrantes. Diferente de quando fazemos trilha na primavera e avistamos de longe campos de Bluebells e tantas outras espécies selvagens, as pequenas flores de fim de inverno aparecem em pequenos grupos. A gente precisa se proximar pra tirar uma foto boa, coisa que não é necessária na abundância floril dos meses de abril e maio.
Uma vantagem, pra mim, da estação nem lá nem cá - nem inverno nem primavera - é a luz. Já não amanhece mais tão tarde, e também não temos a incômoda claridade dando as caras ainda de madrugada. O fim do dia também não aparece de surpresa no meio da tarde, e podemos nos programar para uma trilha mais longa, sabendo que no caminho de volta pra casa veremos o por do sol, e a luz azul intensa iniciando a noite.
Nessa época, passamos por plantações sem saber o que está prestes a crescer ali - é possível caminhar enxergando o portão do outro lado do campo, parece que o horizonte e o céu ficam ainda maiores quando a vegetação não está na altura da cintura. Ou dos ombros, depende do vegetal!
Por fim, e o melhor, é o nosso humor e a receptividade dos companheiros e companheiras de trilha. Quem cruzamos, ou ultrapassamos, sempre abre um sorriso. Ou, os mais extrovertidos, arriscam um comentário sobre o dia bonito, ou sobre quantas pessoas tem na trilha hoje. Até os cachorros estão mais sociáveis, parece que sabem o que vem por aí. Cãezinhos enlameados e felizes distribuem lambeijos pra qualquer pessoa que olhe em seus olhos por mais de dois segundos.
Daqui pra frente, só melhora.



Muito bom mesmo esse sentimento de Primara chegando e dias com mais luz! Em relação a vermos os solsticios e equinócios como o começo e o fim das estações achei interessante que um dia desses vi um vídeo no YouTube em que referia que muitas culturas antigas viam essas mesmas datas como o auge das estações e não o seu começo e fim e achei esse conceito tão mais compreensivo , vai de encontro a esse sentimento que você descreve no texto, apesar de faltarem várias semanas para o “começo” da primavera já a sentimos germinar .
Textos pra ler num embalo e que são tão deliciosos. Parece que estou num hiking com vc a cada descrição. É maravilhoso isso das estações. Como vai mudando gradualmente. Depois dos guias, eu acho q vc poderia juntar todas essas maravilhosidades em um livro de memórias.