Intimidade
Tenho uma satisfação imensa em trocar uma planta de vaso. Aliás, o vaso nem precisa ser trocado - basta trocar a terra. Retirar a planta, e com as mãos calmamente desentrelaçar as raízes da terra ‘antiga’, que já está ali há tanto tempo que quase não retem água nem nutrientes. Acho fascinante ter esse momento íntimo com a planta. Estranho escrever isso, ‘momento íntimo’. Mas, na minha cabeça, a planta deve se sentir tão vulnerável quanto a gente se sente quando precisamos nos despir na frente de um médico. Não tem outro jeito, a gente bota a confiança naquela pessoa e torce pra que ela ou ele esteja tão interessade em manter ou recuperar a nossa saúde quanto nós estamos.
Eu estava agorinha nesse processo. Decidi finalmente dar um vaso maior para a ficus elástica que herdei do meu amigo Thiago quando ele realizou o sonho de 9 entre 10 brasileiros de se mudar para Portugal. Thiago foi feliz e deixou comigo parte de sua herança verde. Desde então ela estava no mesmo vaso - talvez 3 anos? Por aí. O mesmo vaso, e a mesma terra.
Comprei o vaso novo, um pacote de 10 litros de ‘houseplant compost’ e botei a mão na massa. Aos poucos fui retirando a terra velha, ressecada, despindo a raiz. Todo esse momento poético acontecendo em um ambiente nada poético - o banheiro. Mais precisamente dentro da banheira, onde é possível conter a bagunça que esse processo gera. As entranhas da planta ali nas minhas mãos e eu achando tudo fascinante. A raiz se desenrolando, e esticada é muito mais comprida do que eu imaginava. Chamei o Martin pra ver: “Quer vir ver uma coisa legal?”, eu gritei lá do banheiro. “Não”, ele respondeu.
Terminada a troca, a planta voltou para o mesmo lugar que ocupa na sala. Exuberante em seu vaso novo, grande. Folhas brilhantes pós chuveirada. Terra fresquinha, cheia de nutrientes. Que ela cresça muito, pra eu poder repetir esse processo logo mais e, quem sabe, convencer o Martin de que uma raiz comprida é sim algo que vale a pena levantar do sofá para ver.


Tenho uma paixão imensa por esse momento de trocar planta de vaso. A sensação que me dá é de abraço, sabe? Eu e a planta nos damos um abraço imenso, depois fico de olho pta ver se ela gostou do carinho. Em geral esse afago rende umas boas folhas novas - pelo menos minha monstera reagiu assim, ta toda explêndida e eu já to aqui pensando na próxima mudança de terra.