Lições de paciência
Ou o que faz de Cornwall o melhor destino do verão europeu
O melhor conselho que posso dar pra quem se interessa em visitar Cornwall no verão é ter paciência. Ou, caso você não seja muito bom nisso, fica aí uma oportunidade para exercitá-la.
Já começa na viagem. Pra quem resolve pegar a estrada a partir de Londres, como no meu caso, são seis horas pra cruzar do sudeste para o sudoeste do país. Talvez o mesmo tempo que se leva de porta a porta se você prefere pegar um vôo para uma praia na Espanha ou Portugal, por exemplo (claro, caos aeroviário não acrescentado nessa conta).
O jeitinho mais tranquilo mesmo nas cidades mais ‘agitadas’ de Cornwall, como Penzance, coloca a paciência londrina - ou paulistana, ou similar - em teste. As lojas, cafés, lanchonetes, restaurantes, não abrem todos os dias e muito menos todas as horas. Bobeou, ficou sem janta.
Passando pelos obstáculos de paciência acima, chega a hora de ir pra praia. A tão sonhada praia, pela qual esperamos o ano todo. Vamos criando listas, salvando imagens no Instagram, adicionando ‘pins’ no Google Maps pra chegar direitinho nas praias isoladas, com mar da cor do Caribe, que ninguém acredita que existe nesses lados. Mas não há praia paradisíaca e secreta sem antes dirigir por uma estrada estreita, onde passa apenas um carro por vez, mas a mão é dupla. A velocidade é reduzida, a visibilidade depois da curva é inexistente, e quem dirige apenas torce para não ser o que precisa dar ré até sabe a deusa onde possa caber dois automóveis. Isso se você não cruzar com um trator. Ou um ônibus.
Paciência. Paciência! Vai dar pra passar.
Vou pular a parte de encontrar um lugar pra estacionar o carro. Vamos supor que isso não é um mais um possível obstáculo pra exercitar a paciência. Vamos direto para a caminhada entre estacionamento e praia, que não é assim tão simples como você viu no Google Maps. Há (grandes) chances de envolver uma descida íngreme, escorregadia, ou uma passagem tão estreita que os braços e pernas vão arranhando nas plantas e você tenta equilibrar a mochila com a farofa, a cadeira de praia e o guarda sol sem arrancar metade da vegetação local enquanto anda.
Mas valeu a paciência. Você chegou na praia.
A praia é mesmo linda, mas cadê aquelas piscinas naturais? Onde estão as pedras? E a água, não era supostamente calminha? Talvez você tenha chegado no ápice da maré alta. Chama ela de novo, a paciência, e abre a cadeira, pega o livro, e acompanha a maré recuando. Aos poucos, porém notoriamente, vai surgindo o topo daquela pedra. As lambidas da água vão recuando e revelando estrias na areia e uma cor na superfície que gera a discussão mais interessante que pode haver no verão: é azul esverdeada ou verde azulada?
Então chega, finalmente, a hora de entrar na água. O mar ficou tranquilíssimo, as ondas mais altas foram embora com a maré sabe lá pra onde. O exercício de paciência finalmente será recompensado - a não ser por um último obstáculo. A temperatura deliciosamente fria. Entram os pés, os joelhos, as coxas… O processo é lento mas a essa altura você já está profissional nesse jogo de paciência. Valeu demais a pena.
Mandei uma foto de uma das praias no grupo da família, e meu pai perguntou: mas cadê o povo? O povo, pai, não tem paciência pra Cornwall. Pra aproveitar bem essa pontinha da Inglaterra, o imediatismo tem que ficar em casa. E será que isso não torna Cornwall melhor ainda? Eu acho que sim.
PS: Muita gente traduz Cornwall para o português e fala ‘Cornualha’. Mas prefiro o nome em inglês, ou então no dialeto local, Kernow.



Adorei! “As pessoas não tem paciência pra Cornwall”. Ainda bem!
Amei! Estou quase agradecendo que as pessoas não tem paciência. 😉