Molhos
A trilha Laugavegur consiste em 54 quilômetros que atravessam as ‘terras altas’ na Islândia. Começa (ou termina) em Landmannalaugar e termina (ou começa) em Þórsmörk. Fizemos, eu e meu marido, esse percurso no final de agosto de 2018. Nosso primeiro mochilão ‘raiz’: carregando nas costas tudo que fosse necessário para sobrevivência nesse período, em duas mochilas de 15 quilos cada.
Apesar de ser uma trilha famosa e popular, em diversos momentos ao longo dos dias nos encontramos completamente sozinhos. É tudo tão grandioso, que mesmo que 100 pessoas estejam fazendo aquela mesma parte que você está fazendo exatamente naquele dia, a probabilidade é que vocês irão se cruzar apenas quando alguém parar para descansar um pouco, ou já no fim do dia no local determinado pra acampar.
Claro que uma aventura dessas - pelo menos pra mim, foi uma grande aventura - deixa suas marcas na memória. Apesar dos detalhes irem se perdendo ao longo dos anos, e a gente precisar cada vez mais das fotos pra desencadear as lembranças, tem algumas coisas que estão fixas na minha mente.
O cheiro de enxofre proveniente das poças de água fervendo saindo do chão. O chão e montanhas pretas por onde caminhamos no terceiro dia. O sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce. O peso nos ombros, e a ferida que o cinto da mochila deixou no quadril. A bolachinha Belvita saboreada na primeira parada do dia. A primeira árvore, depois de três dias de vegetação rasteira ou inexistente.
E o casal gourmet.
Antes da viagem, quando conversamos com alguns amigos já experientes em mochilão, fomos aconselhados a levar algum ‘luxo comestível’. Conselho facilmente aceito, que se materializou em forma de um pote de Nutella de 500 gramas. Todo dia de manhã, pegávamos as fatias de pão amassada e sem graça, e cobríamos de Nutella. Em um dos acampamentos, os olhos de alguns vizinhos brilharam ao avistar nosso luxo. ‘Nossa, vocês trouxeram Nutella!’. Sim, sim. mas não pra dividir.
Mas nosso ar presunçoso durou pouco. O casal gourmet foi quem nos mostrou o verdadeiro luxo. Enquanto devorávamos mais um miojo sem gosto em outro acampamento, avistamos nossos colegas de trilha preparando sua janta com calma. Era o mesmo casal que havíamos encontrado várias vezes naquele dia especificamente: quando eles paravam, a gente ultrapassava, e vice versa. Já tínhamos achado interessante que a mochila deles era bem mais compacta que a nossa, e ainda assim um deles carregava um banquinho pendurado no lado de fora. Eram claramente mais velhos que a gente, e concluímos que também bem mais experientes.
Mas a surpresa da mochila compacta até ficou em segundo plano quando percebemos que eles tinham um saco plástico com vários tubinhos plásticos dentro - o formato dos tubos me lembra a embalagem de tinta guache que usava na escola, ou do serum noturno Estee Lauder que custa os olhos da cara. Os tubinhos continham molhos. Eram pelo menos uns seis tubos, um de cada cor. Olhávamos para aquela cena extasiados, enquanto devorávamos o miojo sem gosto.
Na manhã seguinte, quando saímos, eles já não estavam mais lá, tinham partido antes de nós para o próximo ponto. Não os encontramos novamente. Tenho certeza absoluta de que souberam do nosso pote de Nutella e fizeram questão de se retirar mais cedo para não passar vergonha.



Consegui imaginar a cena. Um casal xeretando a refeição do outro a distância e cobiçando…eles devem ter levado nutella no mochilão seguinte! 😂
Sensacional a disputa pelos ingredientes mais gourmets, entre os casais! São dicas preciosas, que fazem a diferença numa trilha cansativa ou inóspita, né?!