Pena de planta
Consegui chegar na fila do caixa da Ikea sem pegar nenhuma planta. Na mão, só itens desinteressantes. Um anti derrapante para o tapete, umas lâmpadas inteligentes que podem ser controladas pelo celular (afinal, como eu gosto de falar pro Martin, a gente mora em uma mansão e levantar a bunda da cadeira para acender ou apagar a luz dá muito trabalho), uns apoios para panela de cortiça e nada mais.
Mas, meus amigos, a ida na Ikea só acaba na porta giratória. Não estamos ilesos na fila do caixa. Aliás, se você trabalha no varejo, use esse relato como dica caso sua loja venda plantas. Pessoas que gostam e gastam seu suado salário em plantas são pessoas idiotas. A gente tem pena de planta.
Tenho vários exemplos. O mais frequente é a ida semanal ao supermercado, hábito que começou na pandemia (não é que a gente não comprava em supermercado, é que não existia uma frequência certa e muito menos íamos juntos), afinal era a única oportunidade de sair de casa sem culpa. Eu vou de acessório, já que essa parte do gerenciamento do lar não é minha. Mas vou: o supermercado tem seção de decoração e de plantas, e fico por lá me divertindo como criança em playground, esperando. A parte de plantas é muito boa, mas sempre tem alguma mudinha negligenciada. Algumas completamente ressecadas, ou sedentas, caídas. Outras infestadas de pulgões. Fico ali tentando achar um responsável, afinal não é possível que o Sr Sainsbury não empregue alguém exclusivamente pra isso. Tadinhas. Morrer no supermercado sem sequer ter a chance de abrilhantar um jardim é muita humilhação.
Na Ikea as plantas parecem mais felizes. Mas o problema é outro: clientes malvados se arrependem pelo caminho e largam as coitadinhas por aí, nas outras seções. As chances de sobrevivência reduzem drasticamente, afinal a plantinha abandonada vai passar horas - talvez dias! - sem receber os cuidados do restante do grupo.
E foi assim que eu não saí da Ikea sem uma planta. Na fila do caixa, tinha um anthurium abandonado, com a terra seca, seca. Não podia deixar ele pra trás. A flor do Jorge Tadeu!, eu falei pro Martin. Ele não entendeu, tive que explicar. Olha só, mais uma referência cultural brasileira que ele aprendeu. Planta é também cultura.
E porque eu peguei uma planta sem ter onde colocá-la em casa, precisei ir na loja de material de construção ao lado e buscar uma prateleira. E é assim que o varejo sobrevive, graças a nós idiotas que temos pena de planta.


Muito bom! 😘
Adorei esse texto 👏🏻👏🏻 Também sou outra idiota e a louca da planta e umas semanas atrás salvei uma suculenta que estava caidinha sem água e terra ressecada na loja Wilko e agora está toda feliz junto das outras plantas em casa