Violência verde
(Essa edição da newsletter foi inspirada na foto/legenda que postei ontem no Instagram, então talvez seja repetitivo pra quem já viu)
Sir David Attenborough não descansa. Lançou mais um documentário (aqui na Inglaterra disponível na BBC), dessa vez focado nas plantas. Green Planet, é o nome (Faz sentido, já que a série sobre as águas que banham o planeta se chama Blue Planet). Mais uma vez a produção está cheia de inovações tecnológicas, até tiveram que construir uma nova câmera para conseguirem exatamente o tipo de imagem que queriam mostrar. Tudo muito lindo. Uma das primeiras cenas da série mostra Sir David em um teleférico que passa por cima de uma parte da selva na Costa Rica. Ele começa a falar sobre essa paz que a gente sente quando observa paisagens assim - como tudo parece calmo, como o verde da selva passa uma sensação de harmonia, de tranquilidade.
Mas é tudo mentira, gente. Tudo mentira. As plantas estão em guerra, ele explica. Uma guerra silenciosa pros nossos ouvidos e lenta para os nossos olhos, mas as plantas disputam batalhas tão dramáticas quanto os animais. Uma câmera em time lapse, mostra, por exemplo, a planta que fica dias e dias tentando ‘laçar’ a árvore do lado, pra usá-la como apoio pra crescer e alcançar seu lugar ao sol - e, consequentemente, estrangular e matar a coitada.
Cada milímetro ao sol é duramente disputado, quem cresce mais rápido se dá bem. E aí tem também o problema das formigas, que vão tirando pedaços de folhas pra alimentar um fungo subterrâneo que por sua vez alimenta as formigas, vai crescendo e criando uma clareira no meio da floresta. Coisa de louco. Essa violência verde um dia chega na cidade - tomem cuidado com suas bolsas, jajá enquanto você fotografa um Ipê vai ter um pé de abacate delicadamente roubando sua carteira.
Depois de assistir o primeiro episódio desse documentário, não consegui mais olhar pras minhas plantinhas da mesma forma. Minha cabecinha - que deveria estar concentrada no trabalho - já inventou dezenas de conversas estúpidas que se passam entre elas quando não estou no ambiente. Imagino elas brigando, em uma guerra de egos inflados.
- Nossa querida, como você tá ressecada. Tem que se cuidar. Essa borda marrom nas suas folhas não pega bem não.
- Você acha que pode falar isso, torta desse jeito?
- Antes torta do que nanica.
Ou quem sabe elas elegem uma pra se sacrificar e me fazer sentir uma perdedora?
- Olha, ela tá se achando muito mãe de planta, tá na hora de alguém morrer pra destruir a moral dessazinha.
Também me pergunto se as plantas da sala sabem sobre a existência das plantas no banheiro.
- Ouvi dizer que é possível viver num lugar úmido, uma vez uma moça que morou aqui com a gente uns dias diz que viu. Peraí, deixa eu auto decepar uma folha e quem sabe ela me leva pra lá.
Hoje, sexta feira, é dia de rega. Eu geralmente enfio o dedo na terra pra determinar quem precisa e quem não precisa de água. Mas agora que imagino todas elas me olhando e julgando esse ato tão intrusivo, acho que vou adotar outra tática. Não quero violência nessa casa.
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Adorei sua interação mental com as plantas, eu sou dessas que fala com as plantas, pede desculpas por esquecer de regar, e pede para elas se reanimarem quando estão cabisbaixas. :D
Amei! Não ligaria se os humanos perdessem o protagonismo do planeta para as plantas e os animais.